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DISCURSO
DO PRESIDENTE DA REPUBLICA, LUIZ INACIO LULA DA SILVA, N° XXXIII FORUM
ECONOMICO MUNDIAL
26/01/2003,
Davos – Suíça
Transcrição
distribuída pela Secretaria de Imprensa e Divulgação
Boa
tarde.
Estou
chegando, como vocês sabem, diretamente de Porto Alegre, onde participei do
Fórum Social Mundial, e falei a dezenas de milhares de pessoas sobre os
mesmos assuntos de que pretendo tratar aqui.
A
Reunião Anual do Fórum Econômico Mundial tem como tema central a construção
da confiança. Sinto-me muito à vontade com esse tema. Sou depositário da
confiança do povo brasileiro, que me atribuiu a responsabilidade de
conduzir um país de 175 milhões de habitantes, uma das maiores economias
industriais do planeta. Mas, um país que convive, também, com enormes
desigualdades sociais.
Trago
a Davos o sentimento de esperança que tomou conta de toda a sociedade
brasileira. O Brasil se reencontrou consigo mesmo, e esse reencontro se
expressa no entusiasmo da sociedade e na mobilização nacional para
enfrentar os enormes problemas que temos pela frente.
Aqui,
em Davos, convencionou-se dizer que hoje existe um único Deus: o mercado.
Mas a liberdade de mercado pressupõe, antes de tudo, a liberdade e a
segurança dos cidadãos.
Respondi,
de forma serena e madura, aos que desconfiaram dos nossos compromissos,
durante a campanha eleitoral. Na Carta ao Povo Brasileiro, reafirmei a
disposição de realizar reformas econômicas, sociais e políticas muito
profundas, respeitando contratos e assegurando o equilíbrio econômico.
O
Brasil trabalha para reduzir as disparidades econômicas e sociais,
aprofundar a democracia política, garantir as liberdades públicas e
promover, ativamente, os direitos humanos.
A
face mais visível dessas disparidades são os mais de 45 milhões de
brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza. O seu lado mais dramático
é a fome, que atinge dezenas de milhões de irmãos e irmãs brasileiras.
Por
essa razão, fizemos do combate à fome nossa prioridade. Não me cansarei
de repetir o compromisso de assegurar que os brasileiros possam, todo dia,
tomar café, almoçar e jantar.
Combater
a fome não é apenas tarefa do Governo, mas de toda a sociedade. A erradicação
da fome pressupõe transformações estruturais, exige a criação de
empregos dignos, mais e melhores investimentos, aumento substancial da
poupança interna, expansão dos mercados no país e no exterior, saúde e
educação de qualidade, desenvolvimento cultural, científico e tecnológico.
Urge
que o Brasil promova a reforma agrária e retome o crescimento econômico,
de modo a distribuir renda. Estabelecemos regras econômicas claras, estáveis
e transparentes. E estamos combatendo, implacavelmente, a corrupção. Nossa
infra-estrutura deverá ser ampliada, inclusive com a participação de
capitais estrangeiros.
Somos
um país acolhedor. A tolerância e a solidariedade são características do
povo brasileiro. Temos uma força de trabalho qualificada, apta para os
grandes desafios da produção neste novo século.
A
retomada do desenvolvimento requer a superação dos constrangimentos
externos. O Brasil tem que sair desse círculo vicioso de contrair novos
empréstimos para pagar os anteriores. É necessário realizar um extraordinário
esforço de expansão do nosso comércio internacional, em particular das
nossas exportações, diversificando produtos e mercados, agregando valor àquilo
que produzimos.
Todo
o esforço que estamos fazendo para recuperar, responsavelmente, a economia
brasileira, no entanto, não atingirá plenamente seus objetivos sem mudanças
importantes na ordem econômica mundial. Queremos o livre comércio, mas um
livre comércio que se caracterize pela reciprocidade. De nada valerá o
esforço exportador que venhamos a desenvolver se os países ricos
continuarem a pregar o livre comércio e a praticar o protecionismo.
As
mudanças da ordem econômica mundial devem passar, também, por uma maior
disciplina no fluxo de capitais, que se deslocam pelo mundo, ao sabor de
boatos e de especulações subjetivas e sem fundamento na realidade.
É
necessário que a comunidade internacional dê sua contribuição para
impedir a evasão ilegal de recursos, que buscam refúgios em paraísos
fiscais. Maior disciplina nessa área é fundamental para o decisivo combate
ao terrorismo e à delinqüência internacionais, que se alimentam da
lavagem de dinheiro.
A
construção de uma nova ordem econômica internacional, mais justa e democrática,
não é somente um ato de generosidade, mas, também, e principalmente, uma
atitude de inteligência política.
Mais
de dez anos após a derrubada do Muro de Berlim, ainda persistem “muros”
que separam os que comem dos famintos, os que têm trabalho dos
desempregados, os que moram dignamente dos que vivem na rua ou em miseráveis
favelas, os que têm acesso à educação e ao acervo cultural da humanidade
dos que vivem mergulhados no analfabetismo e na mais absoluta alienação.
É
necessário, também, uma nova ética. Não basta que os valores do
humanismo sejam proclamados, é preciso que eles prevaleçam nas relações
entre os países e os povos.
Nossa
política externa está firmemente orientada pela busca da paz, da solução
negociada dos conflitos internacionais e pela defesa intransigente dos
nossos interesses nacionais.
A
paz não é só um objetivo moral. É, também, um imperativo de
racionalidade. Por isso, defendemos que as controvérsias sejam solucionadas
por vias pacíficas e sob a égide das Nações Unidas. É necessário
admitir que, muitas vezes, a pobreza, a fome e a miséria são o caldo de
cultura onde se desenvolvem o fanatismo e a intolerância.
A
preservação dos interesses nacionais não é incompatível com a cooperação
e a solidariedade. Nosso projeto nacional não é xenófobo e, sim,
universalista. Queremos aprofundar nossas relações com os países da América
do Sul, desenvolvendo com eles uma integração econômica, comercial,
social e política.
Queremos
negociar cada vez mais positivamente com os Estados Unidos, a União Européia
e os países asiáticos. Teremos, na condição de país que possui a
segunda maior população negra do mundo, um olhar especial para o
continente africano, com o qual temos laços étnicos e culturais profundos.
Quero
convidar a todos os que aqui se encontram, nessa montanha mágica de Davos,
a olhar o mundo com outros olhos. É absolutamente necessário reconstruir a
ordem econômica mundial para atender aos anseios de milhões de pessoas que
vivem à margem dos extraordinários progressos científicos e tecnológicos
que um ser humano foi capaz de produzir.
Não
fiquem indefinidamente esperando sinais para mudarem de atitude em relação
ao meu país e aos países em desenvolvimento. Os povos, como os indivíduos,
precisam de oportunidades. Os países ricos de hoje só o são porque
tiveram as suas oportunidades históricas.
Se
querem ser coerentes com a sua experiência vitoriosa, não podem e não
devem obstruir o caminho dos países em via de desenvolvimento. Ao contrário,
podem e devem construir conosco uma nova agenda de desenvolvimento global
compartilhado.
Tenham
certeza de que o Brasil já começou a mudar. Nossa determinação é
resultado não somente de compromissos que assumimos há muitos anos, mas
decorre, também, da esperança que mobiliza o nosso país. Sei que no
debate contemporâneo há divergências, visões de mundo distintas, até
mesmo antagônicas.
Sou
o Presidente de todo o povo brasileiro e não apenas daqueles que votaram em
mim. Estamos construindo um novo contrato social, em que todas as forças da
sociedade brasileira estejam representadas e sejam ouvidas.
Assim,
busco a interlocução com todos os setores que serão reunidos no Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social. Vou buscar contatos e pontos de
apoio para os nossos projetos de mudar a sociedade brasileira, onde quer que
eles estejam.
A
mudança que buscamos não é para um grupo social, político ou ideológico.
Ela beneficiará mais os desprotegidos, os humilhados, os ofendidos e os
que, agora, vêem com esperança a possibilidade de redenção pessoal e
coletiva. Esta é uma causa de todos. Ela é universal por excelência.
Como
o mais extenso e o mais industrializado país do hemisfério sul, o Brasil
se sente no direito e no dever de dirigir aos participantes do Fórum de
Davos um apelo ao bom senso. Queremos fazer um apelo para que as descobertas
científicas sejam universalizadas para que possam ser aproveitadas em todos
os países do mundo.
Na
mesma linha, proponho a formação de um fundo internacional para o combate
à miséria e à fome nos países do terceiro mundo, constituído pelos países
do G-7 e estimulado pelos grandes investidores internacionais. Isso porque
é longo o caminho para a construção de um mundo mais justo e a fome não
pode esperar.
Meu
maior desejo é que a esperança que venceu o medo, no meu país, também
contribua para vencê-lo em todo o mundo. Precisamos, urgentemente, nos unir
em torno de um pacto mundial pela paz e contra a fome.
E,
fiquem certos, o Brasil fará a sua parte.
Muito
obrigado.
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