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ACORDA GIGANTE
Intervista di Massimo D'Alema 

Carta Capital (Brasile), 15 de Janeiro de 2003

Massimo D’Alema, o mais importante líder da esquerda italiana, avalia, em entrevista, que Lula pode colocar não apenas o País como todo o continente latino-americano na rota do desenvolvimento.

Massimo D’Alema, ex-primeiro-ministro e ex-secretário do DS que sucedeu ao PCI, principal líder da esquerda italiana, coleciona corujas. Feitas em metal colorido, vidro de Murano, cerâmica, madeira, “são mais de 250”, diz, exibindo alguns exemplares em seu escritório na Fundação Italiani-Europei, da qual é presidente. Ao assumir variadíssimas feições, de objeto a brinquedo, a ave noturna propriamente dita é representada por um majestoso exemplar empalhado de plumagem cinza-escuro: uma coruja alta, mais de meio metro, vinda da inquietante Transilvânia.

Para um político que ama distinguir-se pela lucidez e frieza analítica, parece supérfluo perguntar a razão de tanta devoção ao pássaro que enxerga no escuro, símbolo notório de vigilância e saber. Para os antepassados do romano Massimo D’Alema, a ave era símbolo de Minerva, personificação da Sabedoria.

Primeiro-ministro entre 1998 e 2000, ele foi o primeiro pós-comunista a assumir o governo do país, à frente de uma coalizão de centro-esquerda, cujo trabalho consentiu à Itália entrar no Euro. Hoje, aos 53 anos, o “líder Maximo”, invariável trocadilho com seu nome, é presidente dos Democratici di Sinistra (Democráticos de Esquerda), o maior partido de oposição a Berlusconi. Criticado pela ala minoritária, que o considera distante das questões mais tradicionais da esquerda e excessivamente preocupado em alargar o diálogo ao centro, D’Alema é o único líder – admitem seus detratores – que, quando fala no Parlamento, direita e esquerda prestam atenção. Famoso por suas tiradas ferinas, autor de numerosos livros de reflexão política, no recém-publicado Oltre la Paura, ele analisa os novos desafios do socialismo europeu no mundo globalizado e os limites críticos de que sofreu o debate na fase anterior.

CartaCapital: O senhor esteve no Brasil em junho para apoiar a candidatura Lula. Voltou em novembro ao fim de uma viagem pela América Latina. Qual a razão de duas viagens tão próximas?
Massimo D’Alema: Lula esteve aqui na fundação em outubro do ano passado, juntamente com o Mercadante e o Luiz Dulci. Há tempos eu tinha sido convidado por Tarso Genro para visitar o Rio Grande do Sul, onde há várias comunidades de italianos. Em São Paulo, havia o convite para o Fórum sobre Globalização e Desenvolvimento local, com prefeitos da América Latina. Decidi ir porque queria colaborar de algum modo na campanha eleitoral de Lula. Era um momento difícil, com muita especulação nos mercados e a utilização de instrumentos de tensão financeira contra ele. Lula estava preocupado em tranqüilizar o ambiente. Conversamos sobre o rumo das coisas e sobre quem contatar aqui na Europa. Uma ajuda de bastidor, coisas mais políticas. Dei entrevistas e conversei com empresários italianos. As grandes empresas, que fazem opinião, tiveram uma atitude muito aberta. A Pirelli anunciou o próprio plano de investimentos durante a campanha. O que equivale a dizer: “Não temos medo. Apostamos no futuro do Brasil”. Combinamos que, se ele ganhasse, eu voltaria para abraçá-lo. Voltei em novembro ao final de uma intensa viagem pela América Latina, durante a qual estive com muitos políticos, muitos líderes da oposição e com os presidentes do Uruguai, do Chile e da Bolívia.

CC: O presidente Lula foi muito caloroso. Declarou publicamente que tinha muito a aprender com quem havia governado um país importante como a Itália.
MDA: Foi realmente afetuoso. Rompeu o protocolo, quis me acompanhar até os jornalistas, com um gesto de real amizade. Sabe que não fomos lá agora porque ele ganhou e todos o procuram. Participamos juntos de manifestações aqui na Europa. Temos uma antiga relação de amizade com ele e o PT.

CC: Significa que o senhor pode se considerar uma espécie de conselheiro?
MDA: Não se trata disso. Minha viagem à América do Sul tinha um duplo objetivo – por um lado desenvolver as relações entre a esquerda européia e a América Latina. Espero que o PT entre para a Internacional Socialista e que possamos contar com eles no congresso sobre a globalização, que faremos em janeiro. Por outro lado, como político italiano, me preocupo com as relações entre os governos brasileiro e italiano. Fiquei impressionado com a Associação Brasil-Itália, integrada por alguns dos maiores empresários do Brasil, como Luiz Fernando Furlan, coesos em torno do projeto do Lula de criar um pacto social para definir os rumos do País. Fiz uma conferência ao retornar. Tenho conversado com políticos aqui e no âmbito europeu. Estive com o ministro do Exterior italiano para falar sobre a viagem.

CC: Qual a importância internacional da sua vitória?
MDA: Penso que a eleição de Lula tenha incidência sobre os equilíbrios mundiais. O Brasil é um país-continente. A extraordinária novidade brasileira se insere em uma situação internacional em movimento. Cheia de riscos, mas também de uma nova consciência. Há demanda de maior justiça social e de um governo apto a enfrentar a globalização com os instrumentos certos; há anseio por estabilidade e paz, ao lado dos riscos de fechamento dos países mais ricos e dos riscos de distorção unilateral por parte dos EUA. Tudo isso faz da eleição de Lula um acontecimento ainda mais importante. Considero que a esquerda européia deva dar a este novo interlocutor atenção maior do que a já demonstrada até agora.

CC: Como o senhor vê a vitória de Lula no contexto latino-americano?
MDA: A situação do continente é difícil. Marcada por um precário equilíbrio entre tragédias e esperanças de mudança. Enfrentam-se riscos de regressão e desagregação, além dos riscos populistas, como no caso da Venezuela e do Equador. Nesse quadro de tamanha complexidade, a vitória de Lula é vista por todos com grande esperança. Pelos líderes de esquerda, obviamente. Mas também pelos conservadores. Certamente por Ricardo Lagos, presidente do Chile, que considero uma das personalidades mais fortes da América Latina. Mas os presidentes do Uruguai e da Bolívia, que são liberais-conservadores, também se referem a Lula como quase a única esperança neste momento. Lógico, a possibilidade de que o gigante Brasil se ponha em movimento é uma idéia que agrada a todos, porque carregaria consigo o continente na direção do desenvolvimento.

CC: Os adversários de Lula esperavam que o medo da tragédia argentina jogasse contra ele. Em vez disso, parece ter encorajado o eleitorado a enxergar o perigo das receitas monetaristas do FMI.
MDA: Sem dúvida. Não é verdade que o sistema argentino caiu em razão de uma mudança aventurosa. Foi o oposto: não tiveram força suficiente e coragem de mudar uma política fundada no Consenso de Washington e na dolarização. Lógica perversa que aprisionou a economia do continente.

CC: Qual a perspectiva para a América Latina?
MDA: Não penso que se possa voltar atrás em relação à liberalização dos mercados. Mesmo que, em muitos casos, a experiência das privatizações tenha sido negativa. Porque as privatizações são positivas quando criam mercados competitivos. Quando apenas transferem para privados monopólios públicos, elas têm efeito especulativo e significam a dispersão de um patrimônio nacional. Não raro são acompanhadas por fenômenos de corrupção das classes dirigentes. Na Argentina, isso foi particularmente evidente. No momento, é prioritária a atenção às políticas sociais. Porque o principal trunfo do desenvolvimento da América Latina é o mercado latino-americano. É preciso ter a coragem de criar um grande mercado através do processo de integração regional, que está só no começo. Deveria ser levada adiante, não em paralelo, mas através da interconexão entre Mercosul e Pacto Andino. Há uma lógica de subcontinente a ser articulada que deverá ser uma das grandes tarefas de Lula.

CC: O Brasil forte é importante para a América do Sul, mas também assusta. Baseado na experiência européia, tem algum conselho a dar aos brasileiros?
MDA: Não vejo outra perspectiva fora da integração. Para fazer crescer um grande mercado latino-americano, mas também para reimpostar a relação com os EUA. Passar a uma negociação continental fora da lógica do case by case, que aos norte-americanos interessa muito. Como continente, a América do Sul pode ter força contratual muito maior da que possui na soma das relações bilaterais privilegiadas. Paralelamente aos EUA, deveriam abrir as negociações com a Europa.

CC: O quanto a Europa está efetivamente interessada?
MDA: Na Europa, está aberta a discussão. É preciso que a UE tenha coragem de deixar de lado seu tradicional protecionismo agrícola. Não é mais aceitável a política de subsídios às exportações agrícolas. A posição irredutível de alguns países, como a França, tem sido o verdadeiro impedimento ao desenvolvimento das relações entre Europa e América Latina. Paradoxalmente, desse ponto de vista, devemos fazer uma batalha liberal: derrotar o protecionismo. Nos países desenvolvidos, vige a estranha idéia de que a globalização é uma porta giratória em uma só direção: entram as vantagens, não as desvantagens. Este é um ponto crucial na pauta das discussões que deveremos travar na próxima Internacional Socialista. Precisamos favorecer uma integração comercial que não seja unidirecional. A Europa, às vezes, tem escasso senso da própria missão. Precisaria ser mais orgulhosa e estar à altura das expectativas que gera.

CC: O senhor mencionou a urgência das políticas sociais.
MDA: Os grandes objetivos de caráter social – a redução das desigualdades – são uma questão fundamental para o desenvolvimento. O combate à fome deveria ser apoiado internacionalmente. O perdurar deste e de outros fenômenos dramáticos de marginalização social, além de intoleráveis do ponto de vista da justiça social, são também um gravíssimo handicap para a economia. O neoliberalismo cultivou a desastrosa idéia de que as políticas de desenvolvimento industrial não eram necessárias.

CC: A globalização foi apresentada como algo inexorável, que, mais cedo ou mais tarde, traria benefício a todos. Mas é feita de tratados e acordos que favorecem somente alguns.
MDA: A formação de um mercado mundial e a livre circulação de mercadorias é um processo irrefreável. Não acredito em volta atrás. Mas é verdade que, sem ser governado, gera enormes desigualdades. No processo, há vencedores e vencidos. Graças à globalização, 1,5 bilhão de asiáticos hoje vive melhor. Não é pouca coisa. Vi a China antes e depois. É evidente o enorme progresso econômico e social. A América Latina e a África foram os continentes derrotados. A globalização acirra a competição entre os países. Torna-os mais cruéis e com menores possibilidades de defesa. Na competição global, a força do sistema asiático foi dispor de uma grande massa de trabalhadores profissionalizados, disciplinados e a baixo custo. A Europa e os EUA têm tecnologia, grandes universidades, pesquisa, know-how. A América Latina ficou espremida, como em geral ficam as classes médias. Não conseguiu encontrar o próprio modelo de competição. Também por culpa dos seus governantes.

CC: Em recente livro, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz diz que as decisões do FMI são orientadas por uma mistura de ideologia e má economia.
MDA: Fizemos um seminário de parlamentares do Ulivo (N. da R.: coalizão dos partidos italianos de centro-esquerda) com Stiglitz há 15 dias. Esta reflexão sobre a globalização começa a tomar pé na esquerda internacional. Falo da esquerda reformista que certamente pecou por uma visão otimista da globalização. Os debates sobre a Terceira Via também sofreram desse limite: a idéia de que o desenvolvimento global traria progresso para todos. Não há dúvida de que estamos diante de uma dramática explosão de contradições. O 11 de setembro prova que a globalização sem evolução política gera conflitos e riscos enormes. Voltamos a refletir sobre a globalização com consciência da necessidade de corrigir os desequilíbrios, de governar o processo, de relançar o papel dos grandes organismos democráticos multilaterais. Não é possível continuar a delegar decisões de grande relevância política a organismos técnicos como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

CC: O que pode ser feito para que a política recupere o enorme terreno que foi cedido à economia?
MDA: Reforçar as instituições supranacionais. Diante de uma economia mundial, caso o agir político permaneça no âmbito do Estado Nacional, a política ficará sempre um degrau abaixo. O único modo para poder regular o desenvolvimento mundial é desenvolver uma rede de instituições globais com poderes reais. Ou grandes instituições supranacionais. Para nós, a Europa é crucial. É necessário que a UE não seja somente o banco, a moeda, o mercado. Queremos um governo europeu que seja banco de provas concretíssimo do que significa governar a globalização.

CC: Um processo generalizado de cessão de soberania nacional em favor dos órgãos supranacionais?
MDA: Sim. Penso também nas Nações Unidas. Estou relançando uma antiga idéia nas conferências que tenho feito sobre a globalização. Ao lado do Conselho de Segurança das Nações Unidas, precisaríamos ter um Conselho de Segurança Econômico, capaz de intervir nas crises econômicas. O FMI e o Banco Mundial deveriam ser estruturas operativas subordinadas a este. Não sedes decisionais. Não é pensável que a política dos Estados seja ditada pelo Fundo Monetário.

CC: Parece uma idéia contracorrente em relação à tendência conservadora de esvaziamento da ONU, não?
MDA: Há o atual confronto americano. Ainda assim eles foram obrigados a aceitar que o Conselho de Segurança se reunisse e tiveram de respeitar as deliberações. O mandonismo americano deve ser combatido. A Europa não pode aceitar que o mundo seja comandado por um único país. Hoje saiu uma pesquisa sobre a opinião pública nos países europeus. Diz que o sentimento de hostilidade em relação aos EUA é crescente na Europa, como em todo o mundo. Espero que os americanos se dêem conta de que essa posição é difícil de ser sustentada. Para Blair a situação também é delicada. A opinião inglesa está dividida e, com ela, parte consistente do eleitorado trabalhista. Porquanto a posição tradicional inglesa seja de solidariedade com os EUA, um ataque ao Iraque, sem explícita decisão da ONU, seria uma escolha dura.

CC: Haverá esta guerra?
MDA: Penso que ela não seja inevitável.

CC: No dia seguinte à vitória do Lula, um editorial do jornal The Guardian criticou Blair e a falta de visão de sua assessoria internacional por ele ter recusado encontrar Lula durante a viagem ao Brasil.
MDA: Verdade? Ocorre que todos nós estabelecemos uma boa relação com Cardoso. Muito incentivada por Clinton, que o quis como integrante da Terceira Via. Fizemos juntos o congresso sobre Global Governance, em Florença, durante o meu governo. Acredito que tenha sido positivo trazer o Brasil para o diálogo sobre a perspectiva internacional do reformismo. Cardoso é uma personalidade complexa. Um intelectual de formação progressista que se pôs à frente de uma coalizão... O processo político brasileiro não é fácil de ler para quem tenha na cabeça as categorias européias. Normalmente, na América Latina, o partido mais conservador se chama revolucionário, não? Na Bolívia, o partido de centro é o Movimento Nacional Revolucionário; no México, Revolucionário Institucional. Nas últimas eleições brasileiras, o candidato mais à direita era social-democrático. O outro era socialista, outro socialista popular, todo o arco da esquerda. Parecia uma espécie de Congresso da Internacional Socialista (risos). A direita não existe? Sabemos que a realidade é diversa. Mas, aparentemente, estávamos diante de um país conservador sem candidatos da direita.

CC: Em uma entrevista, o senhor definiu FHC como um intelectual progressista que se aliou às classes privilegiadas e realizou um governo conservador.
MDA: Tecnocrático-conservador, digamos. Foi ótimo presidente de exportação e bem mais contraditório no empreender políticas de renovação e redução das desigualdades dentro do País. Mas foi uma figura de transição importante para o Brasil. Não acho que se deva subestimar o papel tido por Cardoso no reforço da instituição presidencial no Brasil, coisa que será preciosa para Lula. Porque, com a base parlamentar fragmentada e as demandas dos governadores, caso não tenha como alavanca a força da Presidência, deverá negociar todos os dias e será dificílimo governar. O sistema institucional brasileiro me parece bastante frágil. Um presidente eleito por 52 milhões de pessoas não me parece ter poder correspondente. Estou errado?

CC: O quanto é diferente ser de esquerda na América Latina e na Europa?
MDA: Substancialmente não é diferente. Diferentes são os contextos. Mas as aspirações e os valores são os mesmos. Na América Latina, o trabalho da esquerda deve ser muito mais dramaticamente engajado. Certa vez, quando discutíamos sobre como reformar o Welfare State, Ricardo Lagos comentou: “Há maneiras diferentes de encarar o problema. Entre quem tem um Estado Social e quem não tem”. Na mesma ocasião, abordou as diferenças entre a globalização: entre ser globalizador e ser globalizado. Penso que seja importante reforçar a relação entre a esquerda latino-americana e a esquerda européia. Uma das respostas à globalização é criar uma esquerda mais unida. Espero que Lula e o PT passem a fazer parte da Internacional Socialista. Na minha opinião, seria muito importante. Para o Brasil e para nós.

CC: Lula não é um intelectual progressista, como outros líderes da esquerda.
MDA: Sim, o fato é bastante raro. Mas a esquerda teve líderes importantes que vinham diretamente do povo. Lula possui uma grande carga humana. Conservou sua raiz popular e sua simplicidade. A relação calorosa e direta com as pessoas. Isso é muito simpático. Eu o conheci há muitos anos. Era mais extremista no modo de se apresentar e abordar as coisas. Através das experiências tornou-se o Lulinha Paz e Amor, não é assim? Um homem que se suavizou com o tempo. Amadureceu humanamente. Ficou menos conflituoso.

CC: Mais realista e pragmático?
MDA: Mais realista, mas também mais suave. É um homem atento. Muito simpático. Muito caloroso.

CC: O senhor foi o primeiro governante italiano a ter pertencido ao Partido Comunista. O PCI, maior partido comunista do Ocidente, que conseguiu 34% dos votos em 1984. Um partido sempre inovador, de Gramsci a Berlinguer. O que desse passado é importante no partido hoje?
MDA: Não há dúvida de que crescemos na escola de um partido muito original. No panorama do movimento comunista foi uma espécie de comunismo herético – vamos usar esta expressão – portador de uma tensão democrática e crítica em relação aos modelos do socialismo real. Na América Latina, tendencialmente ligada a um comunismo ortodoxo, o PCI representou um ponto de referência e estímulo importante para as forças intelectuais mais abertas. Foi um partido original em relação ao panorama internacional e dentro da política italiana. Estamos falando de uma força política que se exauriu há quase 15 anos e teve seu ápice com Berlinguer, faz quase 20 anos. É importante situá-la historicamente.

CC: Dizem que Berlinguer o considerava seu herdeiro.
MDA: Infelizmente não podemos perguntar a ele. Tinha com Berlinguer relação pessoal autêntica. Ele me chamava para conversar, queria que lhe contasse as coisas. Enviou-me à China antes de ele mesmo ir, o que considero grande prova de amor. Em 1978, com o fim da guerra civil – depois de Deng Xiaoping ter derrotado a Banda dos Quatro –, tinha sido decidido retomar as relações com o Partido Comunista Chinês e Berlinguer fez uma viagem histórica à China. Seis meses antes, mandou as organizações juvenis para que iniciassem o restabelecimento de contato (D’Alema era o líder da Federação dos Jovens Comunistas Italianos – FGCI). Uma viagem inesquecível. Vinte dias atravessando o país – era raro ver um ocidental –, de um encontro político a outro. Na volta, conversamos até meia-noite: ele queria saber tudo. Era curioso e possuía grande visão internacional dos problemas.

CC: O que sobrou desta herança hoje?
MDA: Fomos formados por uma grande escola de política, com estímulo à inovação e à pesquisa, com visão internacional. Mas o mundo mudou. Pudemos salvar este patrimônio singular da esquerda italiana levando o partido para o âmbito do socialismo democrático. Penso que este era o destino do partido, no momento em que o movimento comunista se concluía com uma derrota. Inclusive nossa. Berlinguer nutriu até o fim a esperança de uma evolução democrática do comunismo. Sobraram alguns nostálgicos. Mas o movimento comunista exauriu seu papel histórico.

CC: No livro Oltre la Paura, o senhor diz que a esquerda “dura e pura”, dos valores ideológicos tradicionais, é complementar a quem declara o fim da esquerda: “Duas faces de uma mesma renúncia”.
MDA: Na minha opinião, não existem novos valores. O que deve mudar são os meios, as soluções políticas, os símbolos. Os símbolos não são um valor. São um fato funcional. Os símbolos têm uma história. Os valores são um elemento constitutivo da esquerda. Certa vez, perguntaram a Berlinguer qual o segredo da sua vitalidade. Ele respondeu: “Continuo a lutar pelos ideais da minha juventude”. Dizia de modo não retórico. Pessoalmente, acredito não ter mudado as razões do meu empenho político. Entrei na política porque queria um mundo mais justo, sentia que era necessário fazer algo contra a opressão e a injustiça. Pensava assim aos 16 anos e penso ainda hoje. Cheguei à conclusão de que o comunismo não era o modo de alcançar aqueles valores. O que não é uma convicção irrelevante, admito. Mas os valores são os mesmos.

CC: O senhor cultiva uma imagem pública de grande racionalidade. No entanto, em seu livro, sublinha que em política – além dos programas – é necessário manter viva a paixão. Como é esse duplo aspecto da prática política?
MDA: A paixão é fundamental, mas deve ser administrada. É preciso não confundir paixão com retórica. São duas coisas bem diferentes. A retórica precisa ser exibida. A paixão, não necessariamente. Sem racionalidade não se identifica o caminho a ser seguido. Os programas são o modo como se dá substância a uma determinada visão das coisas. Os valores se encarnam nos programas e na capacidade da política de dar respostas, indicar perspectivas aos problemas das pessoas. Considerando programa não a lista de compras, mas um projeto. O problema para a esquerda italiana, hoje, é delinear uma visão de futuro para o país. Um projeto capaz de agregar as forças em movimento. Em política, todas essas coisas são necessárias. Mas devem ser alimentadas por convicções. As pessoas se apaixonam por valores, por idéias-força, não por um programa.

CC: O que significa ser reformista? A palavra reforma que tem sido muito usada pela direita também.
MDA: É preciso não deixar que nos roubem as palavras. As palavras são importantes. A direita italiana chama de reforma o desmantelamento do Estado Social. A palavra nasce na esquerda, em alternativa à perspectiva revolucionária. Reforma ou Revolução. A perspectiva revolucionária não me parece muito atual. As reformas são o instrumento democrático para mudar a realidade. O reformismo é acima de tudo o contrário do laissez-faire liberalista.

CC: E as reformas da direita...
MDA: O reformismo da direita pode-se resumir na definição de um político sul-coreano: a missão da política é executar as tarefas que a economia confia a ela. Quais as tarefas que a economia atribuiu à política nos últimos 10/15 anos? Remover os obstáculos para a liberalização dos mercados. Chamaram isso de reformismo. Mas reformismo, no significado socialista originário, é fazer com que a economia cumpra as tarefas que a política lhe confia. O contrário. O reformismo da direita tende a reafirmar o primado da economia. O reformismo da esquerda tende a afirmar a primazia da pessoa. Ou seja, da política sobre a economia.

CC: A informática ajudou tanto a política quanto a economia?
MDA: A informática mudou o mundo. Criou imensas potencialidades, mas também enormes problemas. Não há dúvida de que essa transformação põe uma grande questão de democracia. Há alguns anos estive na sala operativa de uma grande sociedade de gestão financeira, em uma das Torres Gêmeas em Nova York. Ali trabalhavam três jovens – dois negros e um asiático – que negociavam títulos públicos italianos por centenas de bilhões ao longo de um dia. Naturalmente, se eles compravam, as taxas desciam; se vendiam, subia. Para um país como a Itália, na época com 120% de déficit em relação ao PIB, quando a taxa de juro subia meio ponto, significava que o Estado devia desembolsar, em juro, mais 6 trilhões de velhas liras. Quando o Estado gasta tanto em juros, tem menos dinheiro para estradas, escolas, hospitais. Claro, não? Então os três garotos mencionados têm poder equivalente a uns 50 deputados. Em que base eles tomavam as decisões? Olhando as notícias lançadas por uma agência: um líder da coalizão de governo anuncia que não votará a lei de orçamento. Naquele momento eles vendem. Em uma época em que o feedback entre política e economia é tão rápido e fatal, é claro que os espaços da democracia se restringem muito. E esses garotos, quem os controla?

CC: Qual a sua opinião sobre os chamados No Global e as propostas de modelos alternativos de sociedade? Qual a contribuição desses movimentos?
MDA: É uma etiqueta sob a qual se move uma realidade heterogênea. Vai das franjas de violência aos grupos de voluntários que organizam a solidariedade na África. Não há dúvida de que o movimento teve o papel de acordar a política para a necessidade de governar a globalização. A denúncia No Global é justa. O problema é como se enfrentam esses desafios. A idéia de reconstruir as barreiras nacionais lembra os movimentos que queriam impedir o desenvolvimento industrial porque explorava o trabalho dos homens. Para combater a exploração do trabalho, quebravam as máquinas. Durou cinco anos e faliu. Não se detém o progresso. Devemos endereçá-lo, mas não podemos detê-lo.

CC: Então?
MDA: O processo da globalização abre três grandes questões. Como reduzir as desigualdades sociais que se acentuaram. Em segundo lugar, como fazer conviver as diferentes identidades em um mundo global. Não é aceitável a homologação do mundo aos valores e à identidade da parte mais forte deste. Uma das razões mais profundas do terrorismo islâmico é a necessidade de responder a tal ameaça. Em terceiro lugar, a globalização põe um grande problema de democracia. No momento em que se quebra a relação entre capitalismo e Estado Nacional, o capitalismo fica sem controle democrático. Livre de qualquer constrição, há o risco de formação de oligarquias que podem dominar o mundo.

 

 

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