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ACORDA
GIGANTE
Intervista di Massimo D'Alema
Carta Capital (Brasile), 15 de
Janeiro de 2003
Massimo
D’Alema, o mais importante líder da esquerda italiana, avalia, em
entrevista, que Lula pode colocar não apenas o País como todo o continente
latino-americano na rota do desenvolvimento.
Massimo
D’Alema, ex-primeiro-ministro e ex-secretário do DS que sucedeu ao PCI,
principal líder da esquerda italiana, coleciona corujas. Feitas em metal
colorido, vidro de Murano, cerâmica, madeira, “são mais de 250”, diz,
exibindo alguns exemplares em seu escritório na Fundação
Italiani-Europei, da qual é presidente. Ao assumir variadíssimas feições,
de objeto a brinquedo, a ave noturna propriamente dita é representada por
um majestoso exemplar empalhado de plumagem cinza-escuro: uma coruja alta,
mais de meio metro, vinda da inquietante Transilvânia.
Para um político que ama distinguir-se pela lucidez e frieza analítica,
parece supérfluo perguntar a razão de tanta devoção ao pássaro que
enxerga no escuro, símbolo notório de vigilância e saber. Para os
antepassados do romano Massimo D’Alema, a ave era símbolo de Minerva,
personificação da Sabedoria.
Primeiro-ministro
entre 1998 e 2000, ele foi o primeiro pós-comunista a assumir o governo do
país, à frente de uma coalizão de centro-esquerda, cujo trabalho
consentiu à Itália entrar no Euro. Hoje, aos 53 anos, o “líder
Maximo”, invariável trocadilho com seu nome, é presidente dos
Democratici di Sinistra (Democráticos de Esquerda), o maior partido de
oposição a Berlusconi. Criticado pela ala minoritária, que o considera
distante das questões mais tradicionais da esquerda e excessivamente
preocupado em alargar o diálogo ao centro, D’Alema é o único líder –
admitem seus detratores – que, quando fala no Parlamento, direita e
esquerda prestam atenção. Famoso por suas tiradas ferinas, autor de
numerosos livros de reflexão política, no recém-publicado Oltre la Paura,
ele analisa os novos desafios do socialismo europeu no mundo globalizado e
os limites críticos de que sofreu o debate na fase anterior.
CartaCapital: O senhor esteve no Brasil em junho para apoiar a
candidatura Lula. Voltou em novembro ao fim de uma viagem pela América
Latina. Qual a razão de duas viagens tão próximas?
Massimo D’Alema: Lula esteve aqui na fundação em outubro do ano passado,
juntamente com o Mercadante e o Luiz Dulci. Há tempos eu tinha sido
convidado por Tarso Genro para visitar o Rio Grande do Sul, onde há várias
comunidades de italianos. Em São Paulo, havia o convite para o Fórum sobre
Globalização e Desenvolvimento local, com prefeitos da América Latina.
Decidi ir porque queria colaborar de algum modo na campanha eleitoral de
Lula. Era um momento difícil, com muita especulação nos mercados e a
utilização de instrumentos de tensão financeira contra ele. Lula estava
preocupado em tranqüilizar o ambiente. Conversamos sobre o rumo das coisas
e sobre quem contatar aqui na Europa. Uma ajuda de bastidor, coisas mais políticas.
Dei entrevistas e conversei com empresários italianos. As grandes empresas,
que fazem opinião, tiveram uma atitude muito aberta. A Pirelli anunciou o
próprio plano de investimentos durante a campanha. O que equivale a dizer:
“Não temos medo. Apostamos no futuro do Brasil”. Combinamos que, se ele
ganhasse, eu voltaria para abraçá-lo. Voltei em novembro ao final de uma
intensa viagem pela América Latina, durante a qual estive com muitos políticos,
muitos líderes da oposição e com os presidentes do Uruguai, do Chile e da
Bolívia.
CC: O presidente Lula foi muito caloroso. Declarou publicamente que tinha
muito a aprender com quem havia governado um país importante como a Itália.
MDA: Foi realmente afetuoso. Rompeu o protocolo, quis me acompanhar até os
jornalistas, com um gesto de real amizade. Sabe que não fomos lá agora
porque ele ganhou e todos o procuram. Participamos juntos de manifestações
aqui na Europa. Temos uma antiga relação de amizade com ele e o PT.
CC: Significa que o senhor pode se considerar uma espécie de
conselheiro?
MDA: Não se trata disso. Minha viagem à América do Sul tinha um duplo
objetivo – por um lado desenvolver as relações entre a esquerda européia
e a América Latina. Espero que o PT entre para a Internacional Socialista e
que possamos contar com eles no congresso sobre a globalização, que
faremos em janeiro. Por outro lado, como político italiano, me preocupo com
as relações entre os governos brasileiro e italiano. Fiquei impressionado
com a Associação Brasil-Itália, integrada por alguns dos maiores empresários
do Brasil, como Luiz Fernando Furlan, coesos em torno do projeto do Lula de
criar um pacto social para definir os rumos do País. Fiz uma conferência
ao retornar. Tenho conversado com políticos aqui e no âmbito europeu.
Estive com o ministro do Exterior italiano para falar sobre a viagem.
CC: Qual a importância internacional da sua vitória?
MDA: Penso que a eleição de Lula tenha incidência sobre os equilíbrios
mundiais. O Brasil é um país-continente. A extraordinária novidade
brasileira se insere em uma situação internacional em movimento. Cheia de
riscos, mas também de uma nova consciência. Há demanda de maior justiça
social e de um governo apto a enfrentar a globalização com os instrumentos
certos; há anseio por estabilidade e paz, ao lado dos riscos de fechamento
dos países mais ricos e dos riscos de distorção unilateral por parte dos
EUA. Tudo isso faz da eleição de Lula um acontecimento ainda mais
importante. Considero que a esquerda européia deva dar a este novo
interlocutor atenção maior do que a já demonstrada até agora.
CC: Como o senhor vê a vitória de Lula no contexto latino-americano?
MDA: A situação do continente é difícil. Marcada por um precário equilíbrio
entre tragédias e esperanças de mudança. Enfrentam-se riscos de regressão
e desagregação, além dos riscos populistas, como no caso da Venezuela e
do Equador. Nesse quadro de tamanha complexidade, a vitória de Lula é
vista por todos com grande esperança. Pelos líderes de esquerda,
obviamente. Mas também pelos conservadores. Certamente por Ricardo Lagos,
presidente do Chile, que considero uma das personalidades mais fortes da América
Latina. Mas os presidentes do Uruguai e da Bolívia, que são
liberais-conservadores, também se referem a Lula como quase a única
esperança neste momento. Lógico, a possibilidade de que o gigante Brasil
se ponha em movimento é uma idéia que agrada a todos, porque carregaria
consigo o continente na direção do desenvolvimento.
CC: Os adversários de Lula esperavam que o medo da tragédia argentina
jogasse contra ele. Em vez disso, parece ter encorajado o eleitorado a
enxergar o perigo das receitas monetaristas do FMI.
MDA: Sem dúvida. Não é verdade que o sistema argentino caiu em razão de
uma mudança aventurosa. Foi o oposto: não tiveram força suficiente e
coragem de mudar uma política fundada no Consenso de Washington e na
dolarização. Lógica perversa que aprisionou a economia do continente.
CC: Qual a perspectiva para a América Latina?
MDA: Não penso que se possa voltar atrás em relação à liberalização
dos mercados. Mesmo que, em muitos casos, a experiência das privatizações
tenha sido negativa. Porque as privatizações são positivas quando criam
mercados competitivos. Quando apenas transferem para privados monopólios públicos,
elas têm efeito especulativo e significam a dispersão de um patrimônio
nacional. Não raro são acompanhadas por fenômenos de corrupção das
classes dirigentes. Na Argentina, isso foi particularmente evidente. No
momento, é prioritária a atenção às políticas sociais. Porque o
principal trunfo do desenvolvimento da América Latina é o mercado
latino-americano. É preciso ter a coragem de criar um grande mercado através
do processo de integração regional, que está só no começo. Deveria ser
levada adiante, não em paralelo, mas através da interconexão entre
Mercosul e Pacto Andino. Há uma lógica de subcontinente a ser articulada
que deverá ser uma das grandes tarefas de Lula.
CC: O Brasil forte é importante para a América do Sul, mas também
assusta. Baseado na experiência européia, tem algum conselho a dar aos
brasileiros?
MDA: Não vejo outra perspectiva fora da integração. Para fazer crescer um
grande mercado latino-americano, mas também para reimpostar a relação com
os EUA. Passar a uma negociação continental fora da lógica do case by
case, que aos norte-americanos interessa muito. Como continente, a América
do Sul pode ter força contratual muito maior da que possui na soma das relações
bilaterais privilegiadas. Paralelamente aos EUA, deveriam abrir as negociações
com a Europa.
CC: O quanto a Europa está efetivamente interessada?
MDA: Na Europa, está aberta a discussão. É preciso que a UE tenha coragem
de deixar de lado seu tradicional protecionismo agrícola. Não é mais
aceitável a política de subsídios às exportações agrícolas. A posição
irredutível de alguns países, como a França, tem sido o verdadeiro
impedimento ao desenvolvimento das relações entre Europa e América
Latina. Paradoxalmente, desse ponto de vista, devemos fazer uma batalha
liberal: derrotar o protecionismo. Nos países desenvolvidos, vige a
estranha idéia de que a globalização é uma porta giratória em uma só
direção: entram as vantagens, não as desvantagens. Este é um ponto
crucial na pauta das discussões que deveremos travar na próxima
Internacional Socialista. Precisamos favorecer uma integração comercial
que não seja unidirecional. A Europa, às vezes, tem escasso senso da própria
missão. Precisaria ser mais orgulhosa e estar à altura das expectativas
que gera.
CC: O senhor mencionou a urgência das políticas sociais.
MDA: Os grandes objetivos de caráter social – a redução das
desigualdades – são uma questão fundamental para o desenvolvimento. O
combate à fome deveria ser apoiado internacionalmente. O perdurar deste e
de outros fenômenos dramáticos de marginalização social, além de
intoleráveis do ponto de vista da justiça social, são também um gravíssimo
handicap para a economia. O neoliberalismo cultivou a desastrosa idéia de
que as políticas de desenvolvimento industrial não eram necessárias.
CC: A globalização foi apresentada como algo inexorável, que, mais
cedo ou mais tarde, traria benefício a todos. Mas é feita de tratados e
acordos que favorecem somente alguns.
MDA: A formação de um mercado mundial e a livre circulação de
mercadorias é um processo irrefreável. Não acredito em volta atrás. Mas
é verdade que, sem ser governado, gera enormes desigualdades. No processo,
há vencedores e vencidos. Graças à globalização, 1,5 bilhão de asiáticos
hoje vive melhor. Não é pouca coisa. Vi a China antes e depois. É
evidente o enorme progresso econômico e social. A América Latina e a África
foram os continentes derrotados. A globalização acirra a competição
entre os países. Torna-os mais cruéis e com menores possibilidades de
defesa. Na competição global, a força do sistema asiático foi dispor de
uma grande massa de trabalhadores profissionalizados, disciplinados e a
baixo custo. A Europa e os EUA têm tecnologia, grandes universidades,
pesquisa, know-how. A América Latina ficou espremida, como em geral ficam
as classes médias. Não conseguiu encontrar o próprio modelo de competição.
Também por culpa dos seus governantes.
CC: Em recente livro, o Nobel de Economia Joseph Stiglitz diz que as
decisões do FMI são orientadas por uma mistura de ideologia e má
economia.
MDA: Fizemos um seminário de parlamentares do Ulivo (N. da R.: coalizão
dos partidos italianos de centro-esquerda) com Stiglitz há 15 dias. Esta
reflexão sobre a globalização começa a tomar pé na esquerda
internacional. Falo da esquerda reformista que certamente pecou por uma visão
otimista da globalização. Os debates sobre a Terceira Via também sofreram
desse limite: a idéia de que o desenvolvimento global traria progresso para
todos. Não há dúvida de que estamos diante de uma dramática explosão de
contradições. O 11 de setembro prova que a globalização sem evolução
política gera conflitos e riscos enormes. Voltamos a refletir sobre a
globalização com consciência da necessidade de corrigir os desequilíbrios,
de governar o processo, de relançar o papel dos grandes organismos democráticos
multilaterais. Não é possível continuar a delegar decisões de grande
relevância política a organismos técnicos como o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial.
CC: O que pode ser feito para que a política recupere o enorme terreno
que foi cedido à economia?
MDA: Reforçar as instituições supranacionais. Diante de uma economia
mundial, caso o agir político permaneça no âmbito do Estado Nacional, a
política ficará sempre um degrau abaixo. O único modo para poder regular
o desenvolvimento mundial é desenvolver uma rede de instituições globais
com poderes reais. Ou grandes instituições supranacionais. Para nós, a
Europa é crucial. É necessário que a UE não seja somente o banco, a
moeda, o mercado. Queremos um governo europeu que seja banco de provas
concretíssimo do que significa governar a globalização.
CC: Um processo generalizado de cessão de soberania nacional em favor
dos órgãos supranacionais?
MDA: Sim. Penso também nas Nações Unidas. Estou relançando uma antiga idéia
nas conferências que tenho feito sobre a globalização. Ao lado do
Conselho de Segurança das Nações Unidas, precisaríamos ter um Conselho
de Segurança Econômico, capaz de intervir nas crises econômicas. O FMI e
o Banco Mundial deveriam ser estruturas operativas subordinadas a este. Não
sedes decisionais. Não é pensável que a política dos Estados seja ditada
pelo Fundo Monetário.
CC: Parece uma idéia contracorrente em relação à tendência
conservadora de esvaziamento da ONU, não?
MDA: Há o atual confronto americano. Ainda assim eles foram obrigados a
aceitar que o Conselho de Segurança se reunisse e tiveram de respeitar as
deliberações. O mandonismo americano deve ser combatido. A Europa não
pode aceitar que o mundo seja comandado por um único país. Hoje saiu uma
pesquisa sobre a opinião pública nos países europeus. Diz que o
sentimento de hostilidade em relação aos EUA é crescente na Europa, como
em todo o mundo. Espero que os americanos se dêem conta de que essa posição
é difícil de ser sustentada. Para Blair a situação também é delicada.
A opinião inglesa está dividida e, com ela, parte consistente do
eleitorado trabalhista. Porquanto a posição tradicional inglesa seja de
solidariedade com os EUA, um ataque ao Iraque, sem explícita decisão da
ONU, seria uma escolha dura.
CC: Haverá esta guerra?
MDA: Penso que ela não seja inevitável.
CC: No dia seguinte à vitória do Lula, um editorial do jornal The
Guardian criticou Blair e a falta de visão de sua assessoria internacional
por ele ter recusado encontrar Lula durante a viagem ao Brasil.
MDA: Verdade? Ocorre que todos nós estabelecemos uma boa relação com
Cardoso. Muito incentivada por Clinton, que o quis como integrante da
Terceira Via. Fizemos juntos o congresso sobre Global Governance, em Florença,
durante o meu governo. Acredito que tenha sido positivo trazer o Brasil para
o diálogo sobre a perspectiva internacional do reformismo. Cardoso é uma
personalidade complexa. Um intelectual de formação progressista que se pôs
à frente de uma coalizão... O processo político brasileiro não é fácil
de ler para quem tenha na cabeça as categorias européias. Normalmente, na
América Latina, o partido mais conservador se chama revolucionário, não?
Na Bolívia, o partido de centro é o Movimento Nacional Revolucionário; no
México, Revolucionário Institucional. Nas últimas eleições brasileiras,
o candidato mais à direita era social-democrático. O outro era socialista,
outro socialista popular, todo o arco da esquerda. Parecia uma espécie de
Congresso da Internacional Socialista (risos). A direita não existe?
Sabemos que a realidade é diversa. Mas, aparentemente, estávamos diante de
um país conservador sem candidatos da direita.
CC: Em uma entrevista, o senhor definiu FHC como um intelectual
progressista que se aliou às classes privilegiadas e realizou um governo
conservador.
MDA: Tecnocrático-conservador, digamos. Foi ótimo presidente de exportação
e bem mais contraditório no empreender políticas de renovação e redução
das desigualdades dentro do País. Mas foi uma figura de transição
importante para o Brasil. Não acho que se deva subestimar o papel tido por
Cardoso no reforço da instituição presidencial no Brasil, coisa que será
preciosa para Lula. Porque, com a base parlamentar fragmentada e as demandas
dos governadores, caso não tenha como alavanca a força da Presidência,
deverá negociar todos os dias e será dificílimo governar. O sistema
institucional brasileiro me parece bastante frágil. Um presidente eleito
por 52 milhões de pessoas não me parece ter poder correspondente. Estou
errado?
CC: O quanto é diferente ser de esquerda na América Latina e na Europa?
MDA: Substancialmente não é diferente. Diferentes são os contextos. Mas
as aspirações e os valores são os mesmos. Na América Latina, o trabalho
da esquerda deve ser muito mais dramaticamente engajado. Certa vez, quando
discutíamos sobre como reformar o Welfare State, Ricardo Lagos comentou:
“Há maneiras diferentes de encarar o problema. Entre quem tem um Estado
Social e quem não tem”. Na mesma ocasião, abordou as diferenças entre a
globalização: entre ser globalizador e ser globalizado. Penso que seja
importante reforçar a relação entre a esquerda latino-americana e a
esquerda européia. Uma das respostas à globalização é criar uma
esquerda mais unida. Espero que Lula e o PT passem a fazer parte da
Internacional Socialista. Na minha opinião, seria muito importante. Para o
Brasil e para nós.
CC: Lula não é um intelectual progressista, como outros líderes da
esquerda.
MDA: Sim, o fato é bastante raro. Mas a esquerda teve líderes importantes
que vinham diretamente do povo. Lula possui uma grande carga humana.
Conservou sua raiz popular e sua simplicidade. A relação calorosa e direta
com as pessoas. Isso é muito simpático. Eu o conheci há muitos anos. Era
mais extremista no modo de se apresentar e abordar as coisas. Através das
experiências tornou-se o Lulinha Paz e Amor, não é assim? Um homem que se
suavizou com o tempo. Amadureceu humanamente. Ficou menos conflituoso.
CC: Mais realista e pragmático?
MDA: Mais realista, mas também mais suave. É um homem atento. Muito simpático.
Muito caloroso.
CC: O senhor foi o primeiro governante italiano a ter pertencido ao
Partido Comunista. O PCI, maior partido comunista do Ocidente, que conseguiu
34% dos votos em 1984. Um partido sempre inovador, de Gramsci a Berlinguer.
O que desse passado é importante no partido hoje?
MDA: Não há dúvida de que crescemos na escola de um partido muito
original. No panorama do movimento comunista foi uma espécie de comunismo
herético – vamos usar esta expressão – portador de uma tensão democrática
e crítica em relação aos modelos do socialismo real. Na América Latina,
tendencialmente ligada a um comunismo ortodoxo, o PCI representou um ponto
de referência e estímulo importante para as forças intelectuais mais
abertas. Foi um partido original em relação ao panorama internacional e
dentro da política italiana. Estamos falando de uma força política que se
exauriu há quase 15 anos e teve seu ápice com Berlinguer, faz quase 20
anos. É importante situá-la historicamente.
CC: Dizem que Berlinguer o considerava seu herdeiro.
MDA: Infelizmente não podemos perguntar a ele. Tinha com Berlinguer relação
pessoal autêntica. Ele me chamava para conversar, queria que lhe contasse
as coisas. Enviou-me à China antes de ele mesmo ir, o que considero grande
prova de amor. Em 1978, com o fim da guerra civil – depois de Deng
Xiaoping ter derrotado a Banda dos Quatro –, tinha sido decidido retomar
as relações com o Partido Comunista Chinês e Berlinguer fez uma viagem
histórica à China. Seis meses antes, mandou as organizações juvenis para
que iniciassem o restabelecimento de contato (D’Alema era o líder da
Federação dos Jovens Comunistas Italianos – FGCI). Uma viagem inesquecível.
Vinte dias atravessando o país – era raro ver um ocidental –, de um
encontro político a outro. Na volta, conversamos até meia-noite: ele
queria saber tudo. Era curioso e possuía grande visão internacional dos
problemas.
CC: O que sobrou desta herança hoje?
MDA: Fomos formados por uma grande escola de política, com estímulo à
inovação e à pesquisa, com visão internacional. Mas o mundo mudou.
Pudemos salvar este patrimônio singular da esquerda italiana levando o
partido para o âmbito do socialismo democrático. Penso que este era o
destino do partido, no momento em que o movimento comunista se concluía com
uma derrota. Inclusive nossa. Berlinguer nutriu até o fim a esperança de
uma evolução democrática do comunismo. Sobraram alguns nostálgicos. Mas
o movimento comunista exauriu seu papel histórico.
CC: No livro Oltre la Paura, o senhor diz que a esquerda “dura e
pura”, dos valores ideológicos tradicionais, é complementar a quem
declara o fim da esquerda: “Duas faces de uma mesma renúncia”.
MDA: Na minha opinião, não existem novos valores. O que deve mudar são os
meios, as soluções políticas, os símbolos. Os símbolos não são um
valor. São um fato funcional. Os símbolos têm uma história. Os valores são
um elemento constitutivo da esquerda. Certa vez, perguntaram a Berlinguer
qual o segredo da sua vitalidade. Ele respondeu: “Continuo a lutar pelos
ideais da minha juventude”. Dizia de modo não retórico. Pessoalmente,
acredito não ter mudado as razões do meu empenho político. Entrei na política
porque queria um mundo mais justo, sentia que era necessário fazer algo
contra a opressão e a injustiça. Pensava assim aos 16 anos e penso ainda
hoje. Cheguei à conclusão de que o comunismo não era o modo de alcançar
aqueles valores. O que não é uma convicção irrelevante, admito. Mas os
valores são os mesmos.
CC: O senhor cultiva uma imagem pública de grande racionalidade. No
entanto, em seu livro, sublinha que em política – além dos programas –
é necessário manter viva a paixão. Como é esse duplo aspecto da prática
política?
MDA: A paixão é fundamental, mas deve ser administrada. É preciso não
confundir paixão com retórica. São duas coisas bem diferentes. A retórica
precisa ser exibida. A paixão, não necessariamente. Sem racionalidade não
se identifica o caminho a ser seguido. Os programas são o modo como se dá
substância a uma determinada visão das coisas. Os valores se encarnam nos
programas e na capacidade da política de dar respostas, indicar
perspectivas aos problemas das pessoas. Considerando programa não a lista
de compras, mas um projeto. O problema para a esquerda italiana, hoje, é
delinear uma visão de futuro para o país. Um projeto capaz de agregar as
forças em movimento. Em política, todas essas coisas são necessárias.
Mas devem ser alimentadas por convicções. As pessoas se apaixonam por
valores, por idéias-força, não por um programa.
CC: O que significa ser reformista? A palavra reforma que tem sido muito
usada pela direita também.
MDA: É preciso não deixar que nos roubem as palavras. As palavras são
importantes. A direita italiana chama de reforma o desmantelamento do Estado
Social. A palavra nasce na esquerda, em alternativa à perspectiva
revolucionária. Reforma ou Revolução. A perspectiva revolucionária não
me parece muito atual. As reformas são o instrumento democrático para
mudar a realidade. O reformismo é acima de tudo o contrário do
laissez-faire liberalista.
CC: E as reformas da direita...
MDA: O reformismo da direita pode-se resumir na definição de um político
sul-coreano: a missão da política é executar as tarefas que a economia
confia a ela. Quais as tarefas que a economia atribuiu à política nos últimos
10/15 anos? Remover os obstáculos para a liberalização dos mercados.
Chamaram isso de reformismo. Mas reformismo, no significado socialista
originário, é fazer com que a economia cumpra as tarefas que a política
lhe confia. O contrário. O reformismo da direita tende a reafirmar o
primado da economia. O reformismo da esquerda tende a afirmar a primazia da
pessoa. Ou seja, da política sobre a economia.
CC: A informática ajudou tanto a política quanto a economia?
MDA: A informática mudou o mundo. Criou imensas potencialidades, mas também
enormes problemas. Não há dúvida de que essa transformação põe uma
grande questão de democracia. Há alguns anos estive na sala operativa de
uma grande sociedade de gestão financeira, em uma das Torres Gêmeas em
Nova York. Ali trabalhavam três jovens – dois negros e um asiático –
que negociavam títulos públicos italianos por centenas de bilhões ao
longo de um dia. Naturalmente, se eles compravam, as taxas desciam; se
vendiam, subia. Para um país como a Itália, na época com 120% de déficit
em relação ao PIB, quando a taxa de juro subia meio ponto, significava que
o Estado devia desembolsar, em juro, mais 6 trilhões de velhas liras.
Quando o Estado gasta tanto em juros, tem menos dinheiro para estradas,
escolas, hospitais. Claro, não? Então os três garotos mencionados têm
poder equivalente a uns 50 deputados. Em que base eles tomavam as decisões?
Olhando as notícias lançadas por uma agência: um líder da coalizão de
governo anuncia que não votará a lei de orçamento. Naquele momento eles
vendem. Em uma época em que o feedback entre política e economia é tão rápido
e fatal, é claro que os espaços da democracia se restringem muito. E esses
garotos, quem os controla?
CC: Qual a sua opinião sobre os chamados No Global e as propostas de
modelos alternativos de sociedade? Qual a contribuição desses movimentos?
MDA: É uma etiqueta sob a qual se move uma realidade heterogênea. Vai das
franjas de violência aos grupos de voluntários que organizam a
solidariedade na África. Não há dúvida de que o movimento teve o papel
de acordar a política para a necessidade de governar a globalização. A
denúncia No Global é justa. O problema é como se enfrentam esses
desafios. A idéia de reconstruir as barreiras nacionais lembra os
movimentos que queriam impedir o desenvolvimento industrial porque explorava
o trabalho dos homens. Para combater a exploração do trabalho, quebravam
as máquinas. Durou cinco anos e faliu. Não se detém o progresso. Devemos
endereçá-lo, mas não podemos detê-lo.
CC: Então?
MDA: O processo da globalização abre três grandes questões. Como reduzir
as desigualdades sociais que se acentuaram. Em segundo lugar, como fazer
conviver as diferentes identidades em um mundo global. Não é aceitável a
homologação do mundo aos valores e à identidade da parte mais forte
deste. Uma das razões mais profundas do terrorismo islâmico é a
necessidade de responder a tal ameaça. Em terceiro lugar, a globalização
põe um grande problema de democracia. No momento em que se quebra a relação
entre capitalismo e Estado Nacional, o capitalismo fica sem controle democrático.
Livre de qualquer constrição, há o risco de formação de oligarquias que
podem dominar o mundo.
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